Depois de dois anos sem respostas, testemunhas de jovem torturado dentro da base da GCM, pelos próprios guardas civis, são ouvidas na corregedoria da guarda municipal de Ribeirão Pires, no ABC Paulista. Ato solidariedade ao jovem Paulinho também ocorreu no local.

Em abril de 2019, o estudante Paulo Victor, na época com somente 16 anos, saiu da escola com um grupo de amigos, parando na saída do terminal urbano localizado no centro da cidade de Ribeirão Pires. No terminal enquanto Paulo e seus amigos conversavam e riam, o jovem foi abordado de forma violenta por um GCM, que o levou para dentro da Base da GCM que ficava no local, o submetendo a violência física e psicológica. 

Paulo, que iria encontrar sua mãe após a saída da escola, conta que estava conversando com sua amiga que estava na mesma direção da base da GCM, quando no meio da conversa Paulo apontou para amiga. Logo em seguida, o GCM veio em sua direção abordando-o violentamente em meio aos seus amigos, alegando que Paulo estava apontando o dedo para ele. Paulo era o único negro no grupo de amigos.

Após a violenta abordagem em público, junto a outro GCM, levaram Paulo para a base que há no local. Paulo relata que dentro da base policial, sofreu agressões físicas e psicológicas como enforcamento, tapas, perguntas sobre porte de drogas, onde morava, se já possuía passagem policial. Exigiram o documento do menino e fotografaram sua carteira de identidade. As agressões foram de tal intensidade que o fez urinar na roupa, em seguida, Paulo foi liberado e caminhou até o encontro de sua mãe.

Ao encontrar sua mãe, relatou o fato ocorrido seguindo para sua casa. Angela, mãe de Paulo, dirigiu-se ao local dos fatos em busca de satisfação, e conta que os GCM a trataram de maneira grosseira após exigir satisfações sobre o ocorrido com seu filho, ameaçaram a chamar a polícia militar para ela, e caçoaram do fato do adolescente ter urinado. Em nenhum momento, Angela diz ter se sentido ameaçada, e afirmou que seu filho teria sido o único a ser abordado e submetido a violações por ser negro.

A versão da GCM durante a investigação foi a de que “o rapaz entrou na base voluntariamente e que o motivo foi conversar com ele sobre educação em espaços públicos”. Alegaram também que o jovem urinou na calça por “estar apertado”.

Traumatizado, Paulo ficou meses sem ir à escola, até a transferência para uma mais perto de sua casa, e passou a fazer acompanhamento psicológico.

 “ Aconteceu algo comigo que eu não ia imaginar, eu fiquei com muito medo na rua,  via uma viatura e já ficava com medo e começava andar rápido, não sabia o que fazer” conta a Rede.

As consequências da violência policial também afetou a mãe de Paulo, que ainda hoje, relata que sofre com insônia e toma remédios por conta do trauma.

 “ Não suporto imaginar que ele – Paulo- saia de casa e não volte mais, eu perdi a confiança na polícia, eu tinha até uma admiração por policiais, hoje, não tenho mais. Isso me doeu muito, tirou totalmente minha saúde, hoje não sou mais a mesma.”

A violência sofrida pelo adolescente, foi levada à denúncia na Corregedoria da cidade e registrada em boletim de ocorrência. Até o presente momento, mais de 2 anos e meio do fato, a vítima e seus familiares continuam sem respostas. A família é acompanhada pela Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocidio através da articuladora e advogada Dra. Jaqueline Aparecida Silva Alves Corrêa. 

A demora de providência do caso, evidencia o descaso das autoridades de retirar das ruas agentes públicos que cometem crimes contra a população, reforçando o racismo institucional do sistema de segurança pública do Estado. Paulo e Angela exigem justiça e lutam pelo afastamento dos GCM que violentaram o adolescente. Ao denunciar o caso, ambos reconhecem e relatam que a cor da pele foi o motivo para a violência ter ocorrido. A denúncia e luta por justiça que Paulo e sua mãe trajam com muita coragem, é também uma luta e resistência  contra o sistema e Estado racista e genocida brasileiro. Angela diz para as mães que passam pela mesma situação que ela, não se calarem, denunciarem e defenderem seus filhos, não deixar impune quem cometeu o crime. 

O caso que segue na corregedoria, na sexta, 05 de Novembro, contou com o depoimento de dois dos jovens que estavam presentes no dia do ato de violência ocorrido há mais de dois anos. No mesmo dia, a Rede de Proteção e Resistência ao Genocidio realizou um protesto em apoio ao jovem e visando denunciar a tortura e a violência dos agentes, bem como a omissão das autoridades diante do fato. O ato ocorreu no local onde os jovens foram abordados pela GCM em 2019 e seguiram até a Secretaria de Segurança Pública da cidade, onde as duas testemunhas que presenciaram a -.  violência contra Paulo prestaram depoimento. 

Dados do “Anuário Brasileiro de Segurança Pública” de 2020, apontam que mesmo com a pandemia da Covid-19 houve aumento nos casos de violência policial resultante em morte de civis. Os dados também apontam que é maior a letalidade entre jovens negros e periféricos. No Grande ABC Paulista, região em que está localizada a cidade de Ribeirão Pires, as cidades de Santo André e São Bernardo do Campo aparecem no ranking das 50 cidades do Brasil com o maior número absoluto de mortes decorrentes de intervenção policial em 2020.

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