Cerca de mil pessoas lotaram as ruas da periferia de Osasco (SP) em um protesto realizado pelos amigos e parentes de Caique, com o apoio da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio no último domingo, contra o assassinato de Caique Gabriel, morto por um policial militar em 14 de março.

Uma multidão de cerca de mil pessoas, na sua maioria jovens, mulheres e crianças, marcharam em protesto no último domingo (21), na periferia de Osasco, contra o assassinato de Caíque Gabriel, jovem de 22 anos, executado na noite do dia 14 de março pelo policial militar Daniel Pereira dos Santos ao passear com a sua moto pelo bairro de Vila Menck.

O protesto, o segundo a acontecer desde o assassinato do rapaz, que trabalhava como entregador de marmitas para ajudar sua família, foi organizado pelos familiares e amigos do Caique, com o apoio da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, que acompanha o caso e apoia a família em sua luta em busca de justiça.

De acordo com o boletim de ocorrência, os PMs Daniel Pereira dos Santos e Daniel Vitorino da Silva atendiam a uma ocorrência de duas pessoas na avenida, quando Caique Gabriel surgiu pilotando sua moto em alta velocidade.

Naquele momento o policial Pereira solicitou a parada do jovem, que seguiu andando com a moto e que, segundo o BO, pretendia atropelar o policial.

Foi quando o PM efetuou um disparo de arma de fogo, atingindo Caique nas costas. O entregador caiu no chão a 200 metros de distância e, ainda de acordo com o documento, morreu imediatamente no local. Com ele teria sido encontrado um revólver calibre 32, que, segundo amigos e familiares do rapaz ouvidos pela Rede, teria sido plantada pelos policiais após o crime, para justificar a execução. Amigos e moradores tentaram socorrer o Caique, no entanto foi impedido pelos policiais.

Segundo um dos articuladores da Rede na cidade de Osasco, a manifestação contou com grande participação da população local, um bairro periférico da cidade de Osasco, já que as pessoas estão cansadas da crescente e onipresente violência e brutalidade policiais.

“Este foi o maior ato que já fizemos na cidade. Tivemos o apoio não apenas das pessoas que efetivamente participaram da marcha, mas também das pessoas que optaram por ficar em casa, por causa da Pandemia, mas que faziam questão de bater palmas e mostrar seu apoio enquanto passávamos”, analisa um dos coordenadores da Rede na região, que participa de ações do tipo desde 2017, quando a Rede foi criada.

“A violência policial em Osasco vem crescendo muito nos últimos tempos, tanto a praticada pela Polícia Militar, como pela Guarda Civil Municipal”, conta. 

No mesmo dia do protesto, no domingo à noite, por exemplo, oficiais da GCM usaram balas de borracha para dispersar um baile funk que ocorria no Jardim Conceição, também na periferia do município. Vídeos da ação policial viralizaram nas redes sociais desde então, que foi tema de algumas reportagens na imprensa local.

Para Marisa Fefferman, articuladora da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, a grande participação de jovens no ato, que vieram de vários pontos da periferia de Osasco, demonstra que esta juventude, vítima constante da violência e do descaso estatais, quer ter uma voz e o direito à esperança de um futuro melhor.

“Caminhamos por toda aquela região, pelas comunidades de Vila Dávila e da Vila Menck e contamos mais de 500 motos, cada uma delas com duas pessoas, além dos carros e das pessoas que participaram andando conosco. Foi muito emocionante ver tantas pessoas partilhando um objetivo comum naquela tarde quente e seca de domingo”, lembrou Marisa.

Segundo Marisa, a Rede está apoiando a luta da comunidade pela construção de uma ação coletiva em busca de justiça, participando e estimulando reuniões e o debate na comunidade.

“O caso do Caique nos coloca uma questão importante: será que não existe Pena de Morte no Brasil? Esse menino, como tantos outros, foi criminalizado em uma situação criada pela ação do policial. Como em tantos outros casos, a polícia atirou para matar, agindo como executor de uma pena de morte legitimada pelos meios de comunicação, que reforçam totalmente esta situação, mostrando jovens como Caíque como criminosos. A preocupação de quem esteve no ato era mostrar quem era Caique e como ele era querido por todos que tiveram o privilégio de o conhecer”, analisa Marisa.

Para ela, “jovens como Caique não são reconhecidos como trabalhadores, como pessoas que levam alimentos para as pessoas que, nesta pandemia, conseguem colocar em prática a recomendação do ‘ficar em casa’. Eles garantem o isolamento destas pessoas. Foi muito emocionante ver os jovens expressando sua revolta e sua busca por esperança, se expressando, usando os carburadores de suas motos para fazer barulho e se expressarem”.

Uma comunidade em choque

A morte de Caique, mais uma vítima da violência sistemática do Estado contra os jovens de periferia, chocou e indignou não apenas seus familiares e amigos, mas toda a comunidade onde ele vivia e era conhecido, fato comprovado pelo enorme sucesso e participação popular na manifestação de domingo passado.

O primeiro protesto contra a ação da polícia neste caso aconteceu apenas dois dias depois do assassinato de Caique, quando cerca de 150 pessoas, caminharam pelas ruas do bairro ao som do funk “Espera eu Chegar”, que ficou conhecido após a morte de nove jovens no Massacre de Paraisópolis, em 2019.

A mãe de Caique, Elisângela Aparecida do Nascimento, de 38 anos, descreve seu filho como um rapaz trabalhador, muito querido e respeitado por todos que o conheciam. 

“Desde sempre, ele, como meu filho mais velho, trabalhava para me ajudar em casa, onde somos em nove pessoas”, conta.

Segundo ela, “quando cheguei ao local (onde Caique foi executado), ele já estava sem vida, jogado no chão. Não me deixaram chegar perto do meu filho e me disseram que os policiais impediram as pessoas de tentarem acudir o Caique, logo depois dele ter sido baleado”.

“Os moradores ficaram revoltados e começaram a protestar contra a ação dos policiais, que responderam jogando bombas de gás na gente”, lembra ela.

Para ela, o que mais importa agora é que justiça seja feita. “A polícia está tentando convencer todo mundo que meu filho era um bandido. Isto é mentira e eu não aceito isto de jeito nenhum. Quero justiça! Eles arrancaram um pedaço de mim. Não quero que meu filho se transforme em mais uma estatística e seu assassino saia impune”, conclui.

Um dos amigos de infância de Caique, que conversou com a Rede, mas que prefere não ter seu nome identificado nesta reportagem, diz que o que aconteceu com o rapaz “é um reflexo de como a sociedade vê a gente, que vive em uma favela. Eles pensam que somos todos criminosos ou que só fazemos coisas erradas. Isto é uma grande mentira. Aqui, tem muita gente boa, temos a nossa própria cultura e temos a nossa comunidade, que é quem nos ajuda sempre. Quando acontece algo como o que aconteceu com o Caique, a primeira coisa que as pessoas pensam é que ele mereceu isso”.

Genocídio Estatal

A Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, que acompanha o caso e apoia a família de Caique e a comunidade em sua luta por justiça, vê este crime como mais um exemplo da sistemática e onipresente violência de um Estado racista e classista, que considera que os jovens de periferia são matáveis e não se importam com a dor causada familiares e amigos, que não são incluídas nas estatísticas oficiais. 

A violência estatal contra os jovens negros, pobres e periféricos é comprovada pela ação de movimentos como a Rede, que atua na denúncia e na luta por justiça em casos como o de Caique desde 2017, e por dados oficiais. 

De acordo com relatório apresentado na terça-feira (22) pelo Comitê Paulista pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), entre 2015 e 2020, morreram 504 jovens até 19 anos vítimas de homicídios, latrocínios (roubos seguidos de morte) e lesões corporais seguidas de morte.

No mesmo período e na mesma faixa etária, que inclui crianças e adolescentes, a capital paulista acumulou 581 óbitos cujo autores foram policiais militares e civis. Ou seja, em cinco anos, a polícia de São Paulo matou mais jovens do que somados todos os outros tipos de mortes violentas.

Até quando a sociedade tolerará que este massacre continue?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *