Presos injustamente em janeiro e libertados depois de 40 dias de cárcere, por meio de ação da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, familiares e advogados, três jovens da Zona Sul de SP temem represália de policiais militares envolvidos no caso.

Entre sexta-feira (12) e sábado (13) passados, a Justiça determinou a liberdade provisória de Lennon Seixas Vieira da Silva, de 27 anos, e dos irmãos Rodrigo e Bruno Souza dos Prazeres, de 30 e 27 anos, respectivamente. Os três passaram 40 dias no sistema prisional paulista, acusados de um crime que não cometeram. 

Lennon, Rodrigo e Bruno foram presos acusados de participar de um sequestro relâmpago em 4 de janeiro passado e foram vítimas de um processo de reconhecimento irregular (veja mais detalhes abaixo).

Agora, após sua libertação, os três rapazes temem algum tipo de represália por parte dos policiais envolvidos em sua prisão ilegal. 

“A verdade é que, para a Justiça, nenhum de nós é inocente ainda. Tenho muito medo de sair de casa e tomar outra abordagem da polícia. Tenho medo do que pode me acontecer”, desabafa Lennon, o primeiro dos três rapazes a ter concedida sua liberdade provisória. 

“Os policiais trataram a gente como se não fôssemos nada, foi muita humilhação. Somos pobres, nossa casa não tem nem portão. Eles disseram que esta era uma casa abandonada, onde moravam criminosos. E invadiram. Tenho medo de que isto aconteça de novo e minha família corra riscos”, conta Rodrigo. 

“Estou indignado. Queriam que a gente pagasse por um crime que não cometeu. Perdi mais de um mês da minha vida, sendo tratado injustamente e colocado em um lugar horrível. Não merecia este tratamento”, conta Bruno. 

Os três rapazes exigem que a Justiça os considere inocentes e que seja feita algum tipo de indenização pelo que ocorreu. 

O papel da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio

A Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio se envolveu no caso de Lennon, Bruno e Rodrigo quando um militante do coletivo estava na região de Santo Amaro, também na Zona Sul da capital paulista e presenciou um ato de protesto realizado pela família de Lennon, exigindo sua libertação.

“Na sequência, a família entrou em contato conosco e marcamos uma reunião com eles, para saber mais sobre o caso e elaborar as possíveis estratégias para enfrentar mais esta prisão injusta”, conta Márcio Bhering Silva, militante da Rede. 

O próximo passo, realizado junto com as famílias dos jovens e com a Defensoria Pública, foi obter provas da inocência dos rapazes, por meio dos vídeos que mostram Lennon e Bruno sendo abordados por policiais militares do Programa de Policiamento com Motocicletas (Rocam), no momento em que ocorria o sequestro relâmpago.

Neste caso, a obtenção dos vídeos foi muito difícil, já que os moradores da região temem represálias dos policiais. Articuladores da Rede acompanharam a família, passando de casa em casa solicitando as filmagens.

Além disso, articuladores da Rede acompanharam as famílias à Ouvidoria das Polícias, para garantir que a versão da família fosse escutada e a violência dos policiais denunciada.

Agora, a Rede continua acompanhando a família e os jovens, que precisam ressignificar a injustiçada sofrida e construir formas de resistência.

“A verdade é que os três, como vários outros cujos casos a Rede acompanha desde sua criação, foram presos apenas pela sua cor de pele e por morarem em um bairro pobre da periferia. No Brasil, a prisão tem a ver com o racismo institucional e com a pobreza, e não com o crime supostamente cometido”, avalia Silva. 

“Um jovem negro e pobre pode ser abordado pela PM e preso, sem ter cometido qualquer crime, enquanto está na porta de casa conversando com amigos e familiares”, completa.

Entenda o caso

Lennon, Rodrigo e Bruno foram detidos por policiais militares que atendiam uma ocorrência de sequestro relâmpago de um médico, ocorrido em 4 de janeiro na região do bairro de Piraporinha, Zona Sul da capital paulista.

Encaminhados ao 47º Distrito Policial, no Capão Redondo, foram reconhecidos pela vítima, coagida por policiais que registraram a ocorrência.  Segundo os rapazes e seus defensores, o reconhecimento foi feito de forma irregular, sem a presença de outras pessoas além dos três jovens acusados de terem cometido o crime. 

Além disso, um vídeo de uma câmera de segurança, obtido pela família de Lennon e pela Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, apresentado à Justiça por seu advogado, mostra que dois dos jovens presos, Lennon e Bruno, foram abordados e fotografados pela PM no horário do crime.

O carro do médico sequestrado foi avistado às 23 horas e localizado logo depois, segundo a PM, em uma rua do Jardim São Luiz, a 600 metros do local onde Lennon e Bruno eram revistados por dois PMs da Rocam, que liberaram os dois após fotografá-los entre 22h57 e 23h15.

Outra irregularidade é o fato de que, antes do reconhecimento, a vítima registrou um Boletim de Ocorrência (B.O), no qual a descrição física dos criminosos não bate com a dos três jovens incriminados.

No B.O. registrado em Itapecerica consta que dois dos autores do crime descritos pela vítima teriam cerca de 20 anos e que o terceiro assaltante teria cerca de 17 anos e 1,90 metro de altura. Ao lado da descrição desse adolescente constava o nome Tiago, sem que houvesse razão para este nome constar do documento.

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