Os amigos Wallace Lopes Nascimento, de 20 anos, e Igor Gutsche de Oliveira, de 22, estão presos desde 19 de fevereiro, acusados de terem roubado um celular durante um assalto ocorrido por volta das 4h30 da manhã, na Avenida Sabin, 330, no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo.

Os jovens estão sendo mantidos no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Osasco, na Grande SP, e a audiência de custódia virtual está marcada para o próximo dia 21, às 15h30 e acompanhados pela Defensoria Publica do Estado de São Paulo.

Segundo o Boletim de Ocorrência, Wallace e Igor teriam abordado a vítima, Bruna Ellen da Silva, em um ponto de ônibus, enquanto ela esperava condução para ir ao trabalho. Os dois assaltantes usavam capacetes na hora em que abordaram a vítima, e teriam levado o celular e uma aliança, além de dinheiro. 

Entretanto, os dois rapazes foram levados para o 37º DP (Campo Limpo), por outra ocorrência, que teria acontecido às 23 horas da noite anterior. E, como não foram reconhecidos pela vítima deste primeiro crime, foram liberados e, na porta da delegacia, de forma totalmente irregular, foram reconhecidos pela vítima de assalto na Avenida Sabin e novamente, presos.

A história de Wallace e Igor, levados à delegacia suspeitos de um crime e acusados de outro na porta de saída, mostra bem como opera este sistema racista e genocida mantido pelo Estado, que trata os jovens negros e periféricos como “suspeitos preferenciais” em ocorrências criminais. 

A única evidência que mantém os dois jovens presos no momento é o reconhecimento feito pela vítima, feito de forma irregular, na porta da delegacia de polícia, que disse que um dos assaltantes usava o mesmo tipo de capacete camuflado de um dos rapazes. 

Os rapazes, que trabalham em uma pizzaria, afirmam ter fechado o estabelecimento e depois terem ido ao Baile da 17, baile funk na comunidade de Paraisópolis, também na Zona Sul de SP, onde teriam permanecido até às 5h30 da manhã, o que tornaria impossível sua participação no assalto do qual estão sendo acusados. 

A única infração cometida por Wallace e Igor aconteceu na saída do baile, retornando para casa, os rapazes cobriram a placa da moto que usavam para poder ultrapassar sinais vermelhos, em uma tentativa de não pararem no caminho, com receio de assaltos, e serem multados. 

Segundo Edijane Alves, articuladora da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, que acompanha o caso, a defesa dos rapazes disponibilizou imagens de celular, fotos e vídeos, além de publicações nas redes sociais, que comprovam que os rapazes estavam no baile funk na hora em que o crime ocorreu. Além disso, a versão dos rapazes também é confirmada pelo rastreio do GPS dos aparelhos celulares.

O motoboy Fabiano George Sales, de 38 anos, é amigo de Wallace e conheceu Igor naquela noite, no baile funk e atuará como testemunha de defesa dos rapazes. “Ficamos no Baile da 17 até às 5h40 da manhã no mínimo. Ficamos juntos até o amanhecer. Tiramos várias fotos no celular e a última delas foi feita às 5h37”, conclui.

“Os jovens de periferia não tem direito a lazer ou a estar em um baile funk. É uma estratégia permanente de criminalização do jovem periférico”, avalia Edjane. 

Para a articuladora, os jovens de periferia estão presos em um círculo vicioso, vítimas deste Estado Genocida, no qual são forçados a viver. Neste sistema, por serem pobres, negros e moradores em comunidades pobres, são sempre vistos como alvos e suspeitos em potencial e, acusados de crimes que não cometeram, graças às prisões forjadas ou procedimentos como os reconhecimentos feitos de forma irregular, que se tornaram praxe nas operações policiais.

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