O tatuador e pedreiro Gilberto Amancio de Lima, 30 anos, foi executado com seis tiros disparados por três policiais civis durante uma operação na Favela da Felicidade, Zona Sul da capital paulista, no início da tarde de 14 de maio. Os policiais alegam que Gibinha, como era conhecido na comunidade, teria apontado uma arma de brinquedo para os policiais, que, segundo esta versão, agiram em “legítima defesa”.

No último dia 29, pela manhã, a Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, que acompanha o caso, ativistas e, amigos e familiares do artista fizeram um ato na comunidade, em memória de Gibinha e exigindo justiça.

Gilberto e sua mãe, Dona Edna.

A versão dos policiais

De acordo com o Boletim de Ocorrência sobre o caso, os policiais civis César Augusto de Oliveira, Emiliano Aparecido Podadera Bechelani e José Ney Lopes foram à Rua Um, na Falvela da Felicidade, no bairro Jardim São Luís, na zona sul de SP, para realizarem a intimação de uma testemunha, como parte de uma operação contra o tráfico de drogas.

Durante a operação, os policiais foram procurar o imóvel onde fariam uma intimação perceberam a presença de duas pessoas, em suposta “atitude suspeita” e mandaram os dois homens erguerem suas camisetas. 

Ainda de acordo com o B.O, um dos homens correu e Gilberto ergueu a camiseta e teria sacado uma arma, apontando-a na direção dos policiais, que dispararam seis vezes contra o tatuador. A arma de brinquedo teria se quebrado ao cair no chão. 

O Boletim de Ocorrência ainda afirma que teria ocorrido uma troca de tiros, o que seria obviamente impossível, caso Gilberto realmente portasse uma arma de brinquedo. Gilberto morreu na hora, mas foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). 

O principal problema da versão apontada pelos policiais para justificar a execução de Gibinha é sua lógica.

Pense a respeito: você é um jovem negro, morador de periferia, que, no caminho do trabalho, encontra três policiais dentro da comunidade onde vive. Por qual motivo apontaria uma arma de brinquedo para três homens armados? 

Segundo moradores, a arma de brinquedo teria sido plantada pelos policiais após os tiros, apenas para justificar a execução e foram divulgadas imagens que mostram que a cena da execução foi alterada pelo menos uma vez, já que as fotos mostram o simulacro supostamente usado por Gilberto em diferentes posições. 

Jeferson Jesus Lima, de 24 anos, irmão de Gilberto, não esconde sua revolta com o que aconteceu. “Como é que policiais, que não são daqui (são de São Bernardo do Campo, no ABC paulista), chegam em uma comunidade e abrem fogo contra uma pessoa desarmada, que não oferecia perigo nenhum a eles, no meio do dia? O local onde meu irmão foi morto fica bem no centro da favela. Podiam ter matado uma criança, um idoso”, denuncia.

Grafiti em homenagem ao Gibinha na Favela da Felicidade.

Protesto e Repressão

O primeiro protesto contra a execução aconteceu poucas horas após a morte de Gilberto, quando cerca de 70 moradores da comunidade realizaram um ato na Avenida Guido Caloi, na região de Santo Amaro, zona sul de São Paulo. 

A manifestação terminou em confronto com a Polícia Militar, que usou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar a população, após um dos manifestantes colocar fogo em um ônibus e fazer barricadas na avenida. 

De acordo com Luana de Oliveira, articuladora da Rede de Proteção que atua em bairros da Zona Sul de SP, sete pessoas foram presas pela polícia durante a repressão ao protesto, sendo que seis deles, que foram levados ao 47ºDP (Capão Redondo), foram liberados até o início da manhã seguinte. 

Um deles, Kevin Gabriel da Silva Rodrigues, de 19 anos, está sendo acusado de jogar uma pedra em um policial, apesar de imagens gravadas por participantes do protesto mostraram que ele não estava próximo da pessoa que atirou a pedra. 

Outro rapaz, Lucas de Sousa dos Santos, de 21 anos, está sendo acusado de porte da gasolina usada para incendiar o ônibus durante o protesto.

A Rede acompanha o andamento de todos estes casos e todos os acusados estão em liberdade.

No dia 29, mesmo dia em que milhares de pessoas se reuniram em dezenas de cidades para protestar contra o governo federal genocida de Bolsonaro, em sua memória, por justiça e em defesa da vida, a Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio esteve na comunidade para fortalecer os vínculos e dar continuidade no acompanhamento do caso.

A ação foi apoiada por ativistas e coletivos e consistiu em colar lambes, distribuir folhetos, grafitar e conversar com a comunidade sobre o trabalho da Rede.

A ação teve como ponto de encontro o Espaço Felicidarte, um espaço cultural que funciona também como um ateliê de artes, e fomenta várias atividades de cultura dentro da comunidade. Durante a atividade, lambes, stencil e grafites foram feitos nos portões e paredes dos moradores.

Atualmente, a Rede de Proteção atua em várias frentes, além da ação direta na comunidade, de forma a criar vínculos com os moradores para que saibam que não estão sozinhos e que podem resistir e combater à violência policial.

Na área jurídica, segundo a advogada Evelyn Massetti, integrante do apoio jurídico da Rede de Proteção, já foi realizada uma reunião com o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), e o próximo passo é ter uma audiência com a Corregedoria das Polícias. “Ainda é uma fase muito inicial. Estamos no processo de obter provas, imagens e vídeos, que nos mostrem o que realmente aconteceu nesta ocorrência, e precisamos de todo o apoio da comunidade neste trabalho”, afirma.

Segundo a articuladora Luana, a polícia está assediando a comunidade frequentemente desde a execução de Gilberto, tentando amedrontar os moradores e impor uma espécie de “Lei do Silêncio” no local. “A PM tem ido à comunidade praticamente todos os dias, e tem falado com os moradores. É claramente uma forma de intimidação”, avalia.

Gilberto é mais uma vítima da guerra de extermínio travada por este Estado Genocida e Racista, que trata os jovens de periferia como “suspeitos preferenciais” e cujas vidas podem ser descartadas como um efeito colateral da inútil e fracassada “Guerra às Drogas”.

One thought on “Gibinha: mais uma vítima da Guerra Contra os Pobres

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